Há quarenta anos essa rede de televisão apresenta-se como um diferencial na tv aberta. Posso dizer que a TV Cultura fez parte da minha formação cultural, na infância com o Bambalalão e Curumim, na fase adulta com o Metrópolis, Roda Viva, Vitrine, Matéria Prima (com o Serginho Groisman) e tantos outros filmes, documentários e programas relevantes no desenvolvimento da criticidade e do gosto das artes e do pensar por conta própria. Agora toda essa história está sendo contada em livro, numa publicação que promete ser referência para quem conhece sua trajetória e para as novas gerações que sequer imaginam o legado dessa rede pública. Salve a TV Cultura!
"Eu gosto dos que tem fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem..." (Adriana Calcanhoto)
domingo, 29 de março de 2009
domingo, 22 de março de 2009
O Leitor
Michael (David Kross/Ralph Finnes), jovem de 16 anos, em meados dos anos 1950, vivendo sob a Alemnha nazista, apaixona-se por Hanna (Kate Winslet), uma mulher mais velha. Ela pouco fala sobre sua vida, mas eles têm um tórrido caso que dura apenas aquele verão. O título do filme se explica pelo fato de nos encontros ele passar a ler para ela obras clássicas, como a Odisséia de Homero, antes ou depois de se amarem. De repente ela some sem deixar pistas... Michael segue seus estudos até se tornar um importante advogado. Contudo nesse meio tempo em que estava na universidade, qual não é sua surpresa, ao encontrar Hanna, anos depois, em um tribunal para julgamento de elementos da SS nazista... Belo filme, revelador das facetas ocultas do ser humano, com atuações marcantes, especialmente de Kate Winslet como Hanna, que lhe rendeu o Oscar 2009 de melhor atriz!
Quem quer ser um milhonário
Hollywood se alia a Bollywood para contar a história de Jamal, garoto indiano pobre que ganha 20 milhões de rúpias ao participar de um programa de televisão. O conflito surge pelo fato de não acreditarem que ele tenha chegado a esse objetivo por seus próprios méritos, logo ele é preso e torturado. A partir daí sua trajetória é reconstruída em flashbacks ao longo do filme, inclusive o motivo que o faz inscrever-se no programa é revelado: seu amor pela jovem Latika... Vencedor do Oscar de melhor filme em 2009. Um bom entretenimento, ótima trilha sonora, com uma visão pouco usual da Índia.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Vestibular da Unicamp - Dicas e Lista de Livros
O que se espera do candidato no vestibular da Unicamp? A seguir algumas pistas fornecidas pelo Coordenador do Comvest e por professores de cursinho dão uma idéia de como se preparar.
A propósito a lista dos livros obrigatórios continua a mesma, tanto para o vestibular da Unicamp quanto da Fuvest. São os seguintes:
Auto da barca do inferno – Gil Vicente
• Memórias de um sargento de milícias – Manuel Antônio de Almeida
• Iracema – José de Alencar
• Dom Casmurro – Machado de Assis
• A cidade e as serras – Eça de Queirós
• Vidas secas – Graciliano Ramos
• A rosa do povo – Carlos Drummond de Andrade
• Poemas completos de Alberto Caeiro – (heterônimo de Fernando Pessoa)
• Sagarana – João Guimarães Rosa
Em breve no blog, mais novidades sobre os principais vestibulares.
A propósito a lista dos livros obrigatórios continua a mesma, tanto para o vestibular da Unicamp quanto da Fuvest. São os seguintes:
Auto da barca do inferno – Gil Vicente
• Memórias de um sargento de milícias – Manuel Antônio de Almeida
• Iracema – José de Alencar
• Dom Casmurro – Machado de Assis
• A cidade e as serras – Eça de Queirós
• Vidas secas – Graciliano Ramos
• A rosa do povo – Carlos Drummond de Andrade
• Poemas completos de Alberto Caeiro – (heterônimo de Fernando Pessoa)
• Sagarana – João Guimarães Rosa
Em breve no blog, mais novidades sobre os principais vestibulares.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
A Visita
Sensível adaptação de diversos contos de Caio Fernando Abreu, realizado pela RBS (afiliada da TV Globo do RS) em 2007:
Roteiro e direção precisos, bem ao espírito do autor de Morangos Mofados....
[ ]'s
domingo, 5 de outubro de 2008
Temos escolha

MARTHA MEDEIROS
No interessante livro Homem Lento, de J.M. Coetzee, há uma passagem que me marcou. É um confronto verbal entre o personagem principal do livro, um homem de mais de 60 anos que teve uma perna amputada depois de um acidente de bicicleta, e um garoto adolescente. Ambos estão no sombrio e decadente apartamento do velho, que resmunga: “Eu fui ultrapassado pelo tempo. Este apartamento e tudo o que existe dentro dele foi ultrapassado pelo tempo”. O garoto pergunta se ele não gosta de coisas novas. O velho (que nem é tão velho) responde: “Isso tudo um dia foi novo. Tudo no mundo um dia foi novo. Até eu fui novo. Na hora em que nasci, eu era a coisa mais moderna da face da Terra”.
Nada é tão moderno quanto nós ao nascermos. Sublinhei.
Prosseguindo o diálogo, o garoto então comenta, como quem não quer nada, que um dia foi visitar o avô para mostrar como funcionava um computador. O avô era bem velho e também tinha sido ultrapassado pelo tempo. Hoje fazia compras pela internet, enviava e-mails, recebia fotos.
“E daí?”, pergunta o mal-humorado sem perna.
“Daí que dá pra escolher”.
Eis uma frase, uma verdade, um verso: dá pra escolher. Todo dia, ao levantar da cama, eu procuro me lembrar: dá pra escolher. Nem eu nem você estamos jogados ao léu, nas mãos do destino. Não temos controle sobre tudo, mas dá pra escolher entre ter amigos ou viver recluso, dá pra escolher entre privilegiar um amor ou ter vários casos superficiais, dá pra escolher entre participar ativamente de um projeto que alavanque nosso bem-estar ou ficar de fora apenas criticando, dá pra escolher entre se refugiar num lugar tranqüilo ou aprender a lidar com o stress urbano, dá pra escolher entre levar a vida com bom humor ou levar a vida na ponta da faca.
Tudo é uma escolha, inclusive ser velho ou ser jovem, e isto não se resolve apenas numa clínica de estética. Todas as nossas escolhas passam pelo estado de espírito. É ele que vai determinar se vamos viver uma vida mais simples ou mais complicada, mais solitária ou mais social, mais produtiva ou mais lerda.
Dá pra escolher entre ser carnívora ou vegetariana, entre fumar ou não, entre correr na praia ou ficar um pouco mais na cama, entre jogar paciência ou ler um livro, entre amores serenos ou amores turbulentos. Se a escolha será acertada, aí já é outro assunto, o futuro vai dizer. Pensando bem, acertos e erros nem estão em pauta aqui. O que importa é ter consciência de que ficar sentado esperando que a vida escolha por nós não é uma opção confortável como parece. Descansados da silva, vem o tempo e crau: nos ultrapassa.
***
Infelizmente não poderei votar hoje porque estou longe do meu domicílio eleitoral – vou cumprir meu dever no segundo turno, se houver. Mas se você vai votar, não esqueça que dá pra escolher entre quem repete o mesmo discurso automático e quem apresenta soluções realizáveis. Entre quem tem apego ao poder e quem tem consciência social. Entre quem quer trabalhar só para si mesmo e seu partido, e quem quer trabalhar pela cidade. Não vá pelos outros, não vá por pesquisas: vá pela sua cabeça. Bom voto.
Nada é tão moderno quanto nós ao nascermos. Sublinhei.
Prosseguindo o diálogo, o garoto então comenta, como quem não quer nada, que um dia foi visitar o avô para mostrar como funcionava um computador. O avô era bem velho e também tinha sido ultrapassado pelo tempo. Hoje fazia compras pela internet, enviava e-mails, recebia fotos.
“E daí?”, pergunta o mal-humorado sem perna.
“Daí que dá pra escolher”.
Eis uma frase, uma verdade, um verso: dá pra escolher. Todo dia, ao levantar da cama, eu procuro me lembrar: dá pra escolher. Nem eu nem você estamos jogados ao léu, nas mãos do destino. Não temos controle sobre tudo, mas dá pra escolher entre ter amigos ou viver recluso, dá pra escolher entre privilegiar um amor ou ter vários casos superficiais, dá pra escolher entre participar ativamente de um projeto que alavanque nosso bem-estar ou ficar de fora apenas criticando, dá pra escolher entre se refugiar num lugar tranqüilo ou aprender a lidar com o stress urbano, dá pra escolher entre levar a vida com bom humor ou levar a vida na ponta da faca.
Tudo é uma escolha, inclusive ser velho ou ser jovem, e isto não se resolve apenas numa clínica de estética. Todas as nossas escolhas passam pelo estado de espírito. É ele que vai determinar se vamos viver uma vida mais simples ou mais complicada, mais solitária ou mais social, mais produtiva ou mais lerda.
Dá pra escolher entre ser carnívora ou vegetariana, entre fumar ou não, entre correr na praia ou ficar um pouco mais na cama, entre jogar paciência ou ler um livro, entre amores serenos ou amores turbulentos. Se a escolha será acertada, aí já é outro assunto, o futuro vai dizer. Pensando bem, acertos e erros nem estão em pauta aqui. O que importa é ter consciência de que ficar sentado esperando que a vida escolha por nós não é uma opção confortável como parece. Descansados da silva, vem o tempo e crau: nos ultrapassa.
***
Infelizmente não poderei votar hoje porque estou longe do meu domicílio eleitoral – vou cumprir meu dever no segundo turno, se houver. Mas se você vai votar, não esqueça que dá pra escolher entre quem repete o mesmo discurso automático e quem apresenta soluções realizáveis. Entre quem tem apego ao poder e quem tem consciência social. Entre quem quer trabalhar só para si mesmo e seu partido, e quem quer trabalhar pela cidade. Não vá pelos outros, não vá por pesquisas: vá pela sua cabeça. Bom voto.
domingo, 28 de setembro de 2008
Longa vida aos famintos
MARTHA MEDEIROS
A fome é o flagelo número 1 do mundo. Todos querem combater a fome na África, na Ásia, no Brasil, em todos os cantos onde possa haver uma criança que não usufrua do direito de se alimentar e crescer. Fome zero. De democratas a ditadores, a intenção é única: erradicá-la. Não há como manter um ser vivo com fome.
Posto isso, passo para o terreno das metáforas, que sempre nos coloca frente a frente com a ambigüidade das situações. Tendo pão e manteiga à mesa, um copo de leite, alguma proteína e vitamina, ainda assim uma criatura bem alimentada pode seguir faminta e isso lhe salvar a vida. Não há razão para se existir com fome, mas tampouco sem fome. Alguma fome é necessária. É o que nos dá energia para levantar todos os dias.
Você tem fome de quê, perguntava uma letra de rock. De paixão, responde a maioria. Há milhares de casais que se amam e que não compreendem a razão de seguirem insatisfeitos, já que a vida lhes foi tão boa e generosa. Falta-lhes paixão, que é coisa bem diferente de amor. Paixão mantém a falta de gravidade do corpo, os pés longe do chão, a vida de ponta cabeça, prazer e vertigem, o sim e o não convivendo no mesmo espaço de tempo. Paixão: a causa de tantos desacertos comemorados com champanha, depois das lágrimas. A raridade de sentir-se vivo como nunca se desejou conscientemente, porque a gente sabe o tamanho da encrenca. Paixão é uma fome hemorrágica: de sangue e coração. Milhares morrem pela carência, e outros tanto vivem justamente por mantê-la como uma gula feroz: é a fome mais gloriosa.
E há a fome de vida, que é ainda mais aguda. Além de incorporar a fome por paixão, inclui a fome contraditória por liberdade, e também a fome por conhecimento, a fome pelo êxtase, a fome de sol. Uma pessoa que atingiu a saciedade não percebe que jaz embaixo da terra, ainda que mantenha-se como um zumbi caminhando sobre ela. Morre-se de fome, mas também morre-se por não ter fome.
A fome é mais violenta que o desejo. Este está aliado à vontade, é uma intenção que mistura o emocional com o racional, já que a gente deseja com o cérebro também.
A fome, ao contrário, não pensa. Não dialoga, não negocia. É instintiva, febril. A fome é um grito de “eu quero”, “eu preciso”, sem levar em consideração tudo o que está ao redor. A fome nos expulsa da sociedade, nos desloca de toda civilização e nos isenta de todos os pecados. Voltamos à natureza mais primitiva. A luta por esse tipo de sobrevivência nos redime de qualquer culpa e de qualquer racionalidade. É uma necessidade vital. Como se fôssemos ursos, leoas, guepardos. Não há lei regendo nossas ações predatórias, de subsistência. Você precisa, você luta, e se tiver sorte, vence.
Olho para os lados e vejo pessoas atracadas em pratos de macarrão, sem fome alguma. Devorando carnes, bolos, doces, sem que a vida lhes pareça igualmente suculenta. Não vão morrer de fome de comida, mas alguns correm o risco de morrer antes do tempo, saciados pelo seu vazio.
-----------------------------------------------------------------------------------Posto isso, passo para o terreno das metáforas, que sempre nos coloca frente a frente com a ambigüidade das situações. Tendo pão e manteiga à mesa, um copo de leite, alguma proteína e vitamina, ainda assim uma criatura bem alimentada pode seguir faminta e isso lhe salvar a vida. Não há razão para se existir com fome, mas tampouco sem fome. Alguma fome é necessária. É o que nos dá energia para levantar todos os dias.
Você tem fome de quê, perguntava uma letra de rock. De paixão, responde a maioria. Há milhares de casais que se amam e que não compreendem a razão de seguirem insatisfeitos, já que a vida lhes foi tão boa e generosa. Falta-lhes paixão, que é coisa bem diferente de amor. Paixão mantém a falta de gravidade do corpo, os pés longe do chão, a vida de ponta cabeça, prazer e vertigem, o sim e o não convivendo no mesmo espaço de tempo. Paixão: a causa de tantos desacertos comemorados com champanha, depois das lágrimas. A raridade de sentir-se vivo como nunca se desejou conscientemente, porque a gente sabe o tamanho da encrenca. Paixão é uma fome hemorrágica: de sangue e coração. Milhares morrem pela carência, e outros tanto vivem justamente por mantê-la como uma gula feroz: é a fome mais gloriosa.
E há a fome de vida, que é ainda mais aguda. Além de incorporar a fome por paixão, inclui a fome contraditória por liberdade, e também a fome por conhecimento, a fome pelo êxtase, a fome de sol. Uma pessoa que atingiu a saciedade não percebe que jaz embaixo da terra, ainda que mantenha-se como um zumbi caminhando sobre ela. Morre-se de fome, mas também morre-se por não ter fome.
A fome é mais violenta que o desejo. Este está aliado à vontade, é uma intenção que mistura o emocional com o racional, já que a gente deseja com o cérebro também.
A fome, ao contrário, não pensa. Não dialoga, não negocia. É instintiva, febril. A fome é um grito de “eu quero”, “eu preciso”, sem levar em consideração tudo o que está ao redor. A fome nos expulsa da sociedade, nos desloca de toda civilização e nos isenta de todos os pecados. Voltamos à natureza mais primitiva. A luta por esse tipo de sobrevivência nos redime de qualquer culpa e de qualquer racionalidade. É uma necessidade vital. Como se fôssemos ursos, leoas, guepardos. Não há lei regendo nossas ações predatórias, de subsistência. Você precisa, você luta, e se tiver sorte, vence.
Olho para os lados e vejo pessoas atracadas em pratos de macarrão, sem fome alguma. Devorando carnes, bolos, doces, sem que a vida lhes pareça igualmente suculenta. Não vão morrer de fome de comida, mas alguns correm o risco de morrer antes do tempo, saciados pelo seu vazio.
"Você tem fome de quê???"
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